Flor estrelinha: um tema que desperta, em todo ano de calor e seca, a curiosidade do cafeicultor

25.09.2019 Autor: José Donizeti Alves Fonte: Prof. José Donizeti Alves
Créditos: Prof. José Donizeti Alves...................................................................................

Créditos: Prof. José Donizeti Alves............................................................................................................................................................

Em anos de muito calor e seca é comum aparecer nas lavouras de café agrupamentos de plantas com flores “estrelinhas” (Figura 1). Desta vez demorou, mas aconteceu. Semana passada “pipocou”, pelo menos em meu e-mail, relatos de cafeeiros com quase 100% de suas flores do tipo estrelinhas em várias regiões de Minas Gerais. A maioria deles descreve que o fenômeno não é generalizado na lavoura, mas que aparece em várias plantas, em áreas definidas do tipo reboleiras facilmente visualizadas em campo. Ainda que, de maneira geral, o percentual de plantas com flores estrelinhas não seja muito grande, sempre existe a dúvida se elas vingam ou não. Aproveito então este momento para esclarecer algumas questões sobre o assunto, considerando que o tema é complexo e sem o devido conhecimento técnico é de difícil entendimento. 

 Figura 1. Plantas com alto percentual de flores estrelinhas no município de Carmo do Rio Claro, MG. (Foto cortesia de Eng. Agron. Clayton Grillo Pinto - 20/09/19)

De início é bom esclarecer que, embora ainda não se tenha a dimensão do fenômeno em larga escala, a presença de estrelinhas nas lavouras de café é um aviso, é uma resposta das plantas ao clima adverso de que algo está fugindo da normalidade. Estudos sobre a biologia floral do cafeeiro descrevem esse tipo de flor como uma “anomalia fisiológica” que ocorre antes da antese, depois de longos períodos de escassez hídrica e ondas elevadas de calor seguidos por chuvas, ainda que pequenas. 

Condições extremas de seca e altas temperaturas interferem na formação das estruturas reprodutivas (androceu, gineceu, ovário etc.). Desse modo, os botões florais ainda não estão preparados para a fecundação e antese, uma vez que não se desenvolveram completamente. Com a desidratação dos tecidos florais, a corola (metaclamídea), que é formada por um conjunto de pétalas soldadas umas às outras, se abre repentinamente expondo os elementos florais ainda não desenvolvidos, daí a  aparência atrofiada da flor. Nesse caso, quando as peças florais não se formaram completamente, essas flores abortam e não produzem frutos viáveis. Entretanto, há registros de que cerca de 30% dessas estrelinhas chegam a formar frutos ou que “o sentimento é de que todas elas fecundaram”. O mais provável é que os danos causados não atingiram 100% dos botões florais de uma roseta, deixando várias estruturas reprodutivas intactas, e fecundaram normalmente, desde que após a abertura das flores tenha havido umidade no solo suficiente para a hidratação dos tecidos.

Embora não haja uma medida cientificamente comprovada dos danos causados à produção, é consenso de que estrelinhas são indicativos precisos do elevado grau de estresse do cafeeiro. No caso das fotos acima, observa-se uma condição extrema, pois as estrelinas estão presentes em praticamente 100% das rosetas, situação em que, se fosse generalizada, haveria prejuízo notável para a próxima safra. 

Consideracões:

Considerando o cenário atual do clima e da cafeicultura na região sudeste do país, gostaria de fazer mais alguns comentários além daqueles sobre o tema estrelinhas. Seca e calor são responsáveis por perdas de até 70% na produção agrícola e na cafeicultura não é diferente, basta lembrar o que ocorreu na safra 2014. Por conta da seca e das altas temperaturas, houve uma quebra na tendência de crescimento da produção daquele ano, inclusive com um volume produzido abaixo da safra de 2013, que foi de baixa bienalidade. Peço licença aos leitores para reproduzir um texto retirado ipsis litteris do Quarto Levantamento - Dezembro/2014 da CONAB que diz: “Entre os meses de setembro e dezembro de 2013, as condições climáticas se mostraram favoráveis às lavouras de café, caracterizadas por volume e frequência satisfatórios para as floradas e o vingamento dos grãos, sem expectativa de prejuízos para as lavouras na ocasião. Seguiu-se, no entanto, um longo e severo período de estiagem no decorrer do primeiro trimestre de 2014 em todo o estado de Minas Gerais, mas de duração e intensidade bastante heterogêneos, comprometendo pelo menos uma etapa da adubação e concorrendo para intensificar o ataque de pragas, com destaque para cercóspora, bicho mineiro, ácaro vermelho e broca. O déficit hídrico, provocado pela escassez e irregularidade das chuvas e agravado pelas condições de elevadas temperaturas, causou sérios danos às lavouras de café, atingidas na fase de formação e enchimento de grãos, resultando em perdas na produção das lavouras, na renda do beneficiamento e na qualidade dos grãos colhidos.”

Vejam que este ano, ao contrário do que aconteceu no segundo semestre de 2013, as condições climáticas até o momento não estão favoráveis à cafeicultura. Um exemplo é a constelação de estrelinhas observadas em uma lavoura de segundo ano com alto potencial produtivo (Figura 1). Se isto está acontecendo nesta e em outras lavouras em boas condições fisiológicas e até mesmo irrigadas, o que dirá daquelas que estão desfolhadas e depauperadas desde janeiro deste ano e que representam um grande percentual do parque cafeeiro mineiro? Seca intensa e ondas de calor que ultrapassam a 35°C em uma fase que define o potencial produtivo da lavoura, como a florada, é fatal para a cafeicultura e pode gerar graves prejuizo para safra vindoura. 

A situação pode se agravar mais ainda caso as previsões de um veranico forte e de longa duração em janeiro de 2020, feitas por um climatologista do INMET por ocasião do I Fórum Técnico Café e Clima promovido pela Cooxupé, se confirmarem. Neste caso, a exemplo do que ocorreu em 2014, esta estiagem extra vai causar sérios danos às lavouras de café, pois se dará na fase de formação e enchimento de grãos. 

Somente para ilustrar, reproduzo abaixo um gráfico adaptado (Figura 2) que é produto de dois artigos, em que se computaram o pegamento da florada e a queda de frutos em anos de intempéries climáticas semelhantes às atuais. Observa-se que desde a florada até a colheita pode ocorrer quebra de até 80% no potencial produtivo de uma lavoura e que os maiores prejuízos ocorreram justamente na fase de pegamento da florada. É importante destacar que estes dados não traduzem uma quebra de safra na ordem de 80%, mas sim das possíveis perdas de uma lavoura em anos de fortes pressões do ambiente, considerando o potencial produtivo avaliado durante a florada.
 

Figura 2. Queda no potencial produtivo de uma lavoura em ano de intempéries climáticas.

Finalmente, fica a questão: o que fazer em ocasiões como esta? Infelizmente não foram desenvolvidas ainda variedades de café que suportem, na plenitude, pressões do ambiente como as que estão ocorrendo no último ano. Variedades mais adaptadas para cada região, irrigação, controle fitossanitário, manejo do mato nas entrelinhas, arborização quando possível, quebra-ventos, espaçamentos mais adensados, bioreguladores, protetores de floradas, melhoria na qualidade do solo e cuidados com a nutrição das plantas, especialmente àqueles que levam ao aprofundamento e proliferação de raízes, enverdecimento das folhas e pegamento de floradas como Ca, Mg, P, B e Zn são cuidados que, entre outros, podem ser tomados de forma a amenizar os prejuízos por conta de seca e do calor extremo.

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