O Brasil além do estereótipo de maior produtor de café

12.12.2019 Autor: Jonas Leme Ferraresso Fonte: 25 SCA Magazine
Conhecido mundialmente por suas enormes fazendas de café, o Brasil está no topo da lista dos maiores produtores do mun

Conhecido mundialmente por suas enormes fazendas de café, o Brasil está no topo da lista dos maiores produtores do mundo, ocupando a primeira posição nos últimos 150 anos.

O engenheiro agrônomo e consultor em café, Jonas Leme Ferraresso diz que “há mais no país do que altos volumes de produção e tecnologia de ponta. A cultura do café do Brasil passou por enormes mudanças e muitos desafios nos últimos cento e cinquenta anos.”

O Brasil não só detém o título de maior país produtor de café, sendo associado o termo “Brasil” a “grande produtor” há muito tempo. O país é também o lar do maior produtor individual de café do mundo, que colhe aproximadamente 180 mil sacas de café em 5 mil hectares de plantação - uma quantidade equivalente a um quarto da produção anual total de café de todo Quênia. A maior cooperativa de café do mundo também fica aqui, abrangendo 14.500 membros aproximadamente, que comercializam em média seis milhões de sacas de café anualmente, o mesmo que a produção total do México e da Costa Rica juntos. E claro, 90% dos cafezais brasileiros são constituídos por variedades e linhagens de café desenvolvidas pelo pioneiro Instituto Agronômico de Campinas, um dos principais institutos de pesquisa cafeeira do Brasil e do mundo, e que acumulou um enorme volume de conhecimento científico durante seus 132 anos de operação.

Sabendo de tudo isso, é difícil não construir um estereótipo sobre a produção brasileira de café, não é? Isso ajuda a reforçar uma imagem mental de infinitas terras cafeeiras cultivadas mecanicamente. Mas, se olharmos mais de perto, os números não suportam o estereótipo: 84% dos membros dessa cooperativa gigante cultivam café em menos de 20 ha. Um levantamento agropecuário realizado pelo IBGE apoia essa narrativa: 64% dos 300 mil cafeicultores brasileiros são considerados “pequenos”, com menos de 20 ha de área produtiva, 19% são considerados “médios” (20 -50 ha) e apenas 17% possuem mais de 50 ha de café. Em dados mais recentes consolidados em novembro de 2019, essa proporção se modificou para 72%, 16% e 12%, respectivamente.

Outra pesquisa semelhante constatou que 73% - três quartos! - do café do Brasil é colhido manualmente ou de forma parcialmente mecanizada e apenas 27% das lavouras são colhidas de forma totalmente mecanizada. A imagem desses campos mecanizados sem fim não se encaixa tão facilmente agora, certo?

Cem tons de café

Com o vasto território, o Brasil traçou uma verdadeira diáspora do café. Atualmente, existem centenas de regiões produtoras no país, cada uma com diferentes níveis de tecnologia e manejo. Em cada região, os agricultores desenvolveram técnicas únicas adaptadas aos seus recursos e variedades cultivadas. Entre essas diferentes técnicas de cultivo e as 159 variedades de café registradas no RNC é possível produzir e provar incontáveis tipos de bebida, das mais maravilhosas qualidades.

Nos últimos 25 anos, os agricultores das regiões montanhosas do Brasil enfrentaram alguns entraves relacionados à reinvestimento e lucro. Os altos custos de mão-de-obra, insumos e inflacionamento da cadeia como um todo associados aos baixos preços do mercado internacional acabaram dividido a produção brasileira em três principais segmentos, os quais serão exemplificados. Para resolver o problema de custos e lucratividade, alguns cafeicultores venderam suas terras e se mudaram para áreas planas e mecanizáveis, como o Cerrado de Minas Gerais e a Bahia, reduzindo assim custos com mão-de-obra; outros produtores investiram seu capital em áreas montanhosas, modernizando processos e tecnologias para cultivar café de forma mais rentável; e finalmente o último grupo, formado principalmente por cafeicultores com poucos recursos, que se mantiveram em suas terras produzindo café geralmente de forma mais tradicional e conservadora, e são conhecidos como “tradicionais”.

Os cafeicultores “tradicionais” têm uma longa história na produção de café, alguns com 100 anos de experiência familiar ao longo de várias gerações. Essas propriedades utilizam principalmente mão-de-obra familiar e têm pouco controle orçamentário ou suporte técnico, mas se beneficiam de uma enorme quantidade de conhecimento empírico sobre cafeicultura. Produtores tradicionais estão fortemente conectados com suas terras e cafeeiros e dificilmente deixam suas fazendas, mesmo em tempos difíceis. À medida que a crise dos preços do café se desenrolou nos últimos anos afetou mais severamente esse grupo “tradicional”, principalmente nas últimas duas décadas de flutuações de mercado. Esse fator resultou na descapitalização do setor produtivo, tornando impossível o investimento desse grupo em seus cafezais. Atualmente, quase não reformam seus campos, sendo que poderiam inserir variedades mais modernas, resistentes, rentáveis e em espaçamentos mais produtivos, além de dificilmente utilizarem fertilizantes e agroquímicos mais modernos e eficientes.

Diante de todos esses pontos, alguns agricultores reduziram ou eliminaram drasticamente suas lavouras de café. Outros descobriram novas maneiras de sobreviver, buscando formas de agregar valor ao seu produto. Como você pode esperar, o cultivo manual de café é mais caro que o mecanizado: dados de várias pesquisas e levantamentos mostram que, no Brasil, esse valor varia em média entre 30% e 50%. E o que isso significa? Menos lucro.

Reinventando a roda

Em meados da década de 1990, o café era um excelente negócio - lucrativo, mesmo quando produzido manualmente em áreas montanhosas. Os agricultores vendiam seu café cru em qualquer lugar por preços justos, mas a crise de preços de 2002 mudou tudo: com baixa rentabilidade nas sacas, as empresas de certificação começaram a oferecer em maior escala aos produtores seus padrões e prêmios para práticas sustentáveis de produção de café. A popularidade do manejo orgânico também cresceu devido à impressão de “menor custo”, surgindo nessa época várias fazendas dispostas a implantar boas práticas agrícolas para agregar algum valor ao café cru. Ao longo dos anos, os prêmios pagos pelas entidades certificadoras diminuíram bastante à medida que a produção de café certificado aumentou, o que levou muitos produtores a abandonar suas certificações, voltando novamente quase à estaca zero.

Hoje, a procura por melhores mercados evoluiu, conduzindo os cafeicultores a uma nova e interessantes fase. Para ilustrar minha afirmação, gostaria de compartilhar um exemplo de uma região produtora de café considerada "tradicional" do estado de São Paulo. Conhecida como Circuito das Águas Paulista, essa área cultiva café desde o século XVIII e é conhecida nacionalmente por suas águas minerais com singulares propriedades químicas - fato que trouxe, em 1926, a Prêmio Nobel de Química Marie Skłodowska Curie a visitar essa bela região.

O cafeicultor Roberto Marchi é a quarta geração de sua família a trabalhar nos campos, e sua propriedade está localizada na cidade de Serra Negra. Roberto era considerado um produtor “tradicional” a poucos anos atrás, cultivando 17 ha de café em relevo íngreme, colhidos 100% à mão. Com uma propriedade situada a 1.100m acima do nível do mar, o produtor sempre vendeu suas sacas de café apenas para o mercado de commodities. Como você deve ter adivinhado, Roberto observou suas margens de lucro diminuindo ao longo dos anos. Em 2015, vendo a necessidade de permanecer no negócio, mudou da gestão tradicional de commodities para as práticas sustentáveis de produção de cafés especiais: novos padrões foram implementados e agora, trabalhando diretamente no manejo da propriedade, começou a entender melhor como os processos influenciam a qualidade final do grão. Com a ajuda de sua esposa Rosana, Roberto estudou classificação de café cru, degustação e torra. Atualmente, seu sítio vende café torrado, embalado e com marca própria diretamente a clientes, cafeterias e pequenas mercearias.

O ato de processar e torrar o café na origem traz uma experiência diferente ao consumidor, reunindo toda a expertise da fazenda em uma experiência sensorial única. Reconhecemos essas práticas mais comumente no vinho, e já se sabe como os sabores mudam de fazenda para fazenda e de safra para safra. Agora, os consumidores também poderão ter oportunidade de encontrar essas práticas singulares mais comumente nos pacotes de café. O ponto mais importante dessa prática é que grande parte do lucro do café permanece com a família do produtor, e esse dinheiro será investido na propriedade, propiciando melhor qualidade de vida para o agricultor e sua família. Torrar os grãos na origem não é uma ideia nova - algumas cooperativas brasileiras e produtores começaram a realizar esse processo e desenvolver suas próprias marcas há cerca de 10 anos, porém, após alguns anos de tentativa e erro, boa parte desses empreendedores abandonaram suas torrefações. Torrar, moer, embalar e distribuir o produto depende de um “know-how” muito grande, e as margens de lucro acabam sendo menores do que as esperadas sem essas bases.

Neste caso, Roberto contou com uma vantagem. Sua região abriga um consórcio de nove cidades compostas principalmente por pequenos e médios produtores de café. A união desses cafeicultores os levou a, recentemente, formar uma associação de cafeicultores especializados na produção de cafés finos, a Associação dos Produtores de Cafés Especiais do Circuito das Águas Paulista (ACECAP). Hoje, essas famílias produtoras trabalham arduamente para serem reconhecidas como região singular, via selo de Indicação Geográfica de Origem do Brasil.

Silvia Kurebayashi (à direita) cultiva café orgânico certificado em 2 ha de terra. Aqui, ela trabalha com Jonas (à esquerda) para desenvolver um perfil de torra que melhor se adeque ao seu café.

A maioria dos cafeicultores da ACECAP já torra seu próprio café, buscando essa identidade única e valorizando seu trabalho. O mercado de café é muito dinâmico e complexo, mas essa tendência de torrar os grãos “in loco” se mostra como uma possível forma de agregação de valor, mantendo essa amada bebida lucrativa, justa e transparente ao longo de toda cadeia. Precisamos ter um pensamento consolidado na cafeicultura: no mundo de cafés especiais, quem são realmente especiais são as pessoas.



De norte a sul
A jornada do café no Brasil não é apenas marcada pelo número de anos de cultivo, mas por um movimento de norte a sul à medida que as condições climáticas e de mercados mudaram durante esse trajeto. Logo após sua introdução no país, em 1727, o café começou a ser produzido nos estados do Pará e Maranhão, no norte do Brasil. Um século depois, em meados da década de 1820, a produção de café mudou-se para o estado do Rio de Janeiro. Devido ao empobrecimento do solo, resultado da falta de técnicas de fertilização não consolidadas, a cultura se mudou para sua próxima casa, em meados de 1850, o estado de São Paulo, onde o café desfrutou de um segundo boom até o crash de 1929 em Wall Street, o que levou muitos agricultores a falência. Na década de 1950, a cultura se moveu para o estado do Paraná. A região possuía bons solos para o cultivo de café, mas problemas constantes com geadas e massas polares causaram danos consideráveis nas lavouras, levando à última grande migração da cultura cafeeira, o estado de Minas Gerais na década de 1970. Hoje, somente Minas Gerais produz metade de todo o café do Brasil. Em 2018, o estado colheu 33,6 milhões de sacas de 60 kg. Se Minas Gerais fosse um país, o estado seria o maior produtor de café do mundo!


Créditos: JONAS LEME FERRARESSO é engenheiro agrônomo, consultor em cafés especiais e certificados e trabalha em toda a cadeia de valor do produto na região do Circuito das Águas Paulista.

Artigo publicado na 25 SCA Magazine. Revista de veiculação online em 8 idiomas e versão impressa distribuída para todos os membros da Specialty Coffee Association (também pode ser adquirida através de compra). 

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