Reflexões sobre as safras de café 2021 e 2022

14.12.2020 Autor: José Donizeti Alves Fonte: Professor José Donizeti Alves
Ainda é tempo de diminuir as perdas nas próximas duas safras de café

Este ano foi muito contraditório para a cafeicultura brasileira, uma vez que as condições climáticas contribuíram para uma boa colheita de café ao mesmo tempo em que foram muito prejudiciais para as safras 2021 e 2022 por conta da seca e calor que assolou o corredor cafeeiro de abril a novembro, deixando as lavouras muito desfolhadas.  

Para entender melhor as influências das condições climáticas adversas para as próximas duas safras será necessário fazer uma retrospectiva do que aconteceu nesse ano. A seca e o calor de abril a agosto contribuíram para uniformizar a maturação de frutos, o que facilitou a operação da colheita de 61,6 milhões de sacas de café de 60 kg, dos quais 47,3 milhões foram do café arábica.

Após a colheita, as plantas, que já não estava bem, ficaram mais debilitadas, especialmente as lavouras mais novas e aquelas de área de sequeiro. Na sequência, caiu uma leve chuva no começo de setembro, o que induziu a primeira florada. Sem a proteção das folhas, a maioria dos botões florais sofreu escaldadura, o que resultou em um baixo vingamento das flores, de forma que essa florada irá contribuir muito pouco para a próxima safra.

No começo de outubro, tivemos uma chuva um pouco mais volumosa predispondo as plantas à um grande e uniforme florescimento. Essa segunda florada teve um pegamento mais acentuado, embora o solo permanecesse em déficit hídrico e as temperaturas continuassem elevadas. Essa época, como não poderia ser diferente, foi de muita esperança e incerteza, uma vez que uma grande florada é apenas um prenúncio de uma grande safra, pois desde a florada até a colheita limitações genéticas, fisiológicas, ambientais e agronômicas podem reduzir drasticamente a produção do próximo ano. Para as próximas duas safras, infelizmente, todas essas limitações, de maneira inédita, estavam presentes, daí o temor de que as perdas devem ser grandes. Entretanto, o tamanho do dano neste momento é difícil de prever porque uma série de fatores, como variedade, microclima, irrigação, idade da lavoura, safra colhida, nível de desfolha, altitude, face de exposição ao sol, entre outros, podem interferir na intensidade das perdas. Pessoalmente, penso que a minoria das lavouras terá uma perda de 10%, incluindo nesse percentual as lavouras irrigadas e de altitude. Nas demais, a queda irá variar entre 20 a 40%. Não podemos esquecer ainda que, por conta do alto grau de depauperamento, muitas lavouras foram podadas, antecipando assim o planejamento de uma futura safra zero. Soma-se ainda nessa conta de perdas e danos a queda natural devido à bienalidade negativa dessa safra. Enfim, o mercado deve trabalhar com a perspectiva de uma baixa oferta de café brasileiro para o próximo ano.   

Na primeira semana de novembro, as chuvas voltaram muito irregulares, e em dezembro voltaram em boa intensidade e regularidade, dando início, ainda que tardiamente, ao processo de recuperação das lavoras. Nesse processo, com as chuvas e temperaturas voltando ao normal para a época, o cafeicultor tem que se preparar para diminuir os prejuízos nas safras 2021 e 2022 adotando medidas de manejos que façam a lavoura expressar, ainda que com três meses de atraso, o mais alto nível de resiliência para melhorar o potencial produtivo para a próxima safra. Isso não é milagre. Basta lembrar que, com boas condições ambiental e de manejo, cada ramo produtivo, ainda nessa janela de crescimento que terminará no início de outono, será capaz de lançar até dois pares de folhas por mês. Com uma copa revigorada, as próximas etapas do desenvolvimento dos frutos (crescimento ativo e granação) e a fixação dos mesmos na planta serão beneficiadas por uma energia extra gerada pela fotossíntese desse enfolhamento. Desse modo, ainda que nessa época do ano, por óbvio, seja impossível aumentar o número de frutos na planta, as principais vias para minimizar as perdas na produção em 2021 são (i) a da manutenção dos frutos na planta e (ii) o aumento da renda. Vale lembrar que a região de cada nó a ser lançado (e na base cada par de folhas) comportará uma roseta onde os frutos que serão colhidos em 2022 se desenvolverão. Assim, qualquer ação no sentido de aumentar o número de folhas aumentará automaticamente o número de rosetas, que no conjunto beneficiarão no mínimo duas safras vindouras. 

Finalizando, a boa notícia é que ainda há tempo de fazer muita coisa e diminuir os prejuízos causados pelo longo período de calor e seca. Basta lembrar que o pé de café, desta época em diante, cumpre duplo propósito: (i) enchimento dos grãos para a próxima safra (2021) e (ii) crescimento de ramos em cuja seção será produzido o café que será colhido no ano seguinte (2022). Então, perante essas considerações fisiológicas, penso que devemos tentar esquecer um pouco as perdas, que por certo virão nas próximas duas safras, e fazer o cafeeiro trabalhar a nosso favor. Ao meu ver, as palavras de ordem, mais do que nunca, daqui para frente são: fazer folhas e crescer ramos. Para tanto, converse com o seu consultor.

Queda de chumbinhos

Recentemente, o agrônomo Guy Carvalho publicou um texto destacando que os principais fatores responsáveis pela queda de chumbinhos, observada no Sul de Minas Gerais, são: alta carga de frutos, desfolha, floradas irregulares, deficiência mineral e desequilíbrio de reservas da planta (Queda de chumbinhos - vídeo). Mais do que nunca, a queda de frutos é um problema que assusta os cafeicultores, e com razão, pois os poucos frutos que a planta conseguiu reter, por conta da seca e do calor, começaram a cair em proporções além da esperada mesmo em áreas irrigadas. No presente caso, como mostrado no vídeo, os frutos continuam a cair quando a planta é manualmente balançada. Vamos as explicações fisiológicas.

Em resposta ao período de temperatura elevada e escassez de água que antecedeu as recentes chuvas ocorre um desequilíbrio hormonal em cascata, que culmina com a queda de frutos no período pós-estresse da seguinte maneira. Seca e altas temperaturas induzem a síntese de ácido abscisico, que interrompe o fluxo de auxina até os frutos, o que estimula a produção de etileno na região de inserção do chumbinho com o ramo, que por sua vez promove a degradação/morte das células de sustentação do fruto, criando naquele local um ponto de fraqueza. Com a retomada das chuvas, há um aporte muito grande de água das folhas até os frutos em uma pressão tamanha que o pecíolo, enfraquecido pela morte de suas células, não suporta e os frutos caem. Aqueles que não caem naturalmente, se desprendem da planta a um leve vento ou quando a planta é balançada como bem mostra o vídeo.  

A queda de chumbinhos nesse período pós-estresse é então uma resposta tardia ao ambiente adverso, mediada por hormônios, que aconteceu em um passado recente, resultando em morte celular programada (MCP).  Em resposta a MCP, o fruto se desprende do ramo e não há mais nada o que fazer dado a irreversibilidade da camada de abscisão. Para evitar ou minimizar a MCP, recomenda-se para os períodos que antecedem o estresse uma nutrição adequada e pulverização com produtos antiestresse e auxina. Novamente, converse com o seu consultor.


“Mais uma vez, temos a grata tarefa de compartilhar mais um conteúdo elaborado pelo mestre Dr. José Donizeti e o recado é direto para o amigo cafeicultor - precisamos cuidar bem das lavouras para minimizar as perdas, colaborar com o cafeeiro para o seu bom desenvolvimento, potencializando assim a safra 22. Mesmo com o tempo perdido, não dá para ficar de braços cruzados e só lamentando, vamos fazer a nossa parte. Outro tema extremamente oportuno e que está gerando muita preocupação aos técnicos e produtores é a queda de chumbinhos, e o professor nos esclarece muito bem sobre este evento fisiológico do cafeeiro”, disse Guy. 

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