Café Bourbon Amarelo: O Mito dos Cafés Especiais Brasileiro

08.06.2018 Autor: Guy Carvalho Fonte: Papo de Cafeicultor
Café Bourbon Amarelo: O Mito dos Cafés Especiais Brasileiro

Amigos cafeicultores, nesse episódio nós vamos falar do Bourbon, essa variedade que contribui para levar o Brasil para o mercado de cafés especiais. Para isso, visitamos duas propriedades, viemos aqui na Fazenda Recreio da família do Diogo Carvalho Dias, localizada no munícipio de São Sebastião da Grama. Vamos contar um pouco da história dessa lavoura que é uma das mais antigas que eu conheço, com mais de 60 anos e em plena produção.

Vamos falar do futuro com o Gerson que é pesquisador do IAC que vai mostrar um pouquinho das novidades que vem por aí das linhagens dos cafés da variedade Bourbon. Depois iremos até a fazenda do Adolfo, Fazenda Passeio em Monte Belo e vamos mostrar também como comporta essa variedade no lado de Minas Gerais.

Primeiro eu converso com o meu colega e assistido Diogo que representa a nova geração da família Carvalho e Dias que mantêm vivo a tradição de mais de 60 anos no cultivo da variedade Bourbon na sua propriedade em São Sebastião da Grama, São Paulo.

- Guy Carvalho: Diogo, como é o comportamento dessa variedade aqui na Fazenda Recreio?

- Diogo: Aqui na Fazenda ele se adaptou muito bem ao clima, altitude e então ele não sofre tanto com ferrugem se comparado com outras regiões e produz um café de extrema qualidade. Ele já foi campeão com o Bourbon amarelo.

- Guy Carvalho: Muito bom. Ele é mais difícil de produzir?

- Diogo: Não é que mais difícil, ele é mais exigente em tratos e nutrição. Mas, ele produz muito bem.

- Guy Carvalho: Sobre a qualidade desse café, fale um pouquinho Diogo. Você tem clientes que compram e buscam características especiais. Quais são essas características?

- Diogo: Olha Guy, nós temos grandes clientes que só compra Bourbon. Eles querem o Bourbon amarelo da região. Então, eles procuram acidez que ele produz para dar um destaque na xícara. É um café que se você colocar na mesa junto com outros, ele se destaca violentamente.

- Guy Carvalho: Ele tem um algo mais.

- Diogo: Ele tem um algo mais que a pessoa consegue detectar na xícara perfeitamente. É um café de alta qualidade mesmo.

- Guy Carvalho: Agrada muito o consumidor.

- Diogo: Sim, hoje os melhores cafés do Brasil quase todos são Bourbon amarelo.

- Guy Carvalho: Ou vieram dele de algum cruzamento.

- Diogo: Com certeza.

- Guy Carvalho: Está dando vontade de tomar um café Diogo, vamos lá?

- Diogo: Sim, vamos lá.

Depois de tomar aquele cafezinho especial, produzido e tomado aqui na fazenda, vou conversar com o colega agrônomo e pesquisador do IAC - Instituto Agrônomo de Campinas - Gerson Silva Giomo que traz novas informações do Bourbon.

- Gerson: Bourbon amarelo ou Bourbon vermelho, nós sabemos que está relacionado com fisiologia da planta. São variedades mais exigentes em tratos culturais e nutrição. Então, o produtor que domina a técnica de produção e consegue ter um bom manejo de lavoura, principalmente de pragas e doenças nutricional, estará produzindo em torno de 60 sacas de Bourbon que é bem acima da média nacional. Mas isso tudo requer um tratamento diferenciado, não dá para produzir Bourbon com o mesmo tratamento de catucaí ou mundo novo, ele requer isso.

- Guy Carvalho: Aí, ele quer um sistema de produção adequado para ele.

- Gerson: Nesse sistema você tem que ter um espaçamento adequado e uma população compatível com o solo e junto com o manejo nutricional. Isso, em plantação na lavoura é muito importante. Os arbustos e mudas de boa qualidade de boa procedência, você tem que ter, se for preciso, uma irrigação inicial em regiões que precisam. Então, você dominando essa técnica de produção, não terá problema nenhum e conseguirá produzir com alta produtividade.

- Guy Carvalho: Muitas vezes o produtor acha que o problema está na variedade, mas na verdade ele está no sistema de produção que deve ser adequado.

- Gerson: Justamente, a gente sabe que isso já aconteceu no mercado com outras já lançadas que não tiveram uma boa aceitação. Mas, não necessário o problema está na variedade, mas é que o produtor não dominou a técnica de produção.

- Guy Carvalho: O sistema de produção que não estava adequado?

- Gerson: É, ele não conseguiu dominar como faz aquela variedade produzir. Você veja bem, a gente demora, em uma instituição de melhoramento, de 30 a 40 anos para você chegar a uma nova variedade. Então, é tempo suficiente para você selecionar os melhores materiais. Não tem como você lançar uma cultivar que não seja responsiva. Em minha opinião, o problema está mais no sistema de produção do que com a resposta do cultivar. Então, é importante que o produtor saiba diferenciar essas variedades e atender as exigências de cada uma. Elas são diferentes.

Estamos no grupo de linhagem Bourbon aqui na Fazenda Recreio, em parceria com o IAC. Vamos aproveitar melhor para conhecer bem esse trabalho para a evolução da cafeicultura brasileira.

- Gerson: A gente tem uma coleção de cultivares, linhagens de bourbon amarelo, que faz parte de um experimento que o IAC vem mantendo desde a década de 70, inclusive nessa fazenda temos uma parceria desde essa data, para selecionar. Nessa região, quais são as melhores linhagens do Bourbon amarelo. A gente sabe que ele vem sendo bastante requisitado no mercado de cafés especiais e ela vem se destacando com uma das melhores qualidades de xícara, melhor qualidade de bebida. Então, estamos investindo nessa área aqui, nós temos 16 tratamentos diferentes aonde nós queremos avaliar tanto a característica agronômica dessas linhagens, produtivas, folhamento e tolerância a pragas e doenças. Mas o que importa também, além da qualidade agronômica, é saber como está esse café para que futuramente ela se propaga na fazenda e possa ser usada em escala maior.

- Guy Carvalho: Todo esse café é medido e aprovado cada parcela?

- Gerson: Isso, aqui nós temos um experimento em blocos lacrados com 3 edições. Nós avaliamos, nesse local há 40 plantas em cada parcela, e dessas 40 plantas nós fazemos amostra em laboratório, onde verificamos toda a parte de grãos e a parte sensorial que é a degustação na xícara de acordo com o padrão Associação Americana de Cafés Especiais. Assim, ao longo de 3 ou 4 safras que a gente tem algum resultado que possa ser usado como parâmetro contra essas linhagens. Por que, percebemos que há diferenças agronômicas na parte da qualidade e é isso que importa ao produtor. Não só a produtividade, mas também agregar qualidade porque isso agrega valor.

- Guy Carvalho: Você tinha me falado que os materiais para entrar nesse banco foram de altíssima pontuação pela Esca, é isso?

- Gerson: A gente partiu de um campo original que tinha 33 linhagens aqui na fazenda mesmo, como falei da década de 70 que já havia uma parceria, destes 33 nós selecionamos 16. Então, nesse momento estão as 16 que naquele ciclo de avaliação de 4 safras vieram com a melhor pontuação e nós usamos como critério uma nota de corte de 85 pontos da Esca. Então, aqueles que tiveram nota acima de 85 pontos e compatíveis com o que produtor deseja seguiram para frente. São essas 16 aqui. No final, dentre as 16, chegar na 5 ou 6 melhores porque isso é um refinamento. Nem todas aqui prestam para serem cultivadas em escala, mas espero que algumas delas poderão ser selecionadas.

 Agora nós vamos até a Fazenda Passeio, em Monte Belo, do meu amigo Adolfo Henrique Vieira Ferreira, parceiro de longa data. Ele também comenta sobre a variedade Bourbon, essa que é um mito entre as variedades de cafés especiais cultivadas no Brasil.

- Adolfo: É uma variedade que começamos a implantar aqui na Fazenda há 20 anos. Ela se adaptou muito bem aqui nas condições da fazenda. Ela é uma variedade que demanda mais cuidados. Mas aqui, ela tem se portado igual as outras variedades, com produtividade altas, repetindo safras e dando uma qualidade superior as outras variedades. Aqui, nós utilizamos um pacote tecnológico igual para todas as variedades, porém de alta tecnologia.

- Guy Carvalho: Certo, com todo cuidado com nutrição, fitossanitário?

- Adolfo: Isso, o que a planta exige nós fornecemos para ela.

- Guy Carvalho: Em relação ao mercado Adolfo, esse café é muito procurado?

- Adolfo: É o que o mercado procura. Como eu disse que ele adaptou muito bem aqui na fazenda, criou um padrão de qualidade Bourbon Fazenda Passeio que hoje conseguimos vender toda a produção.

- Guy Carvalho: Então quer dizer, ele ajuda a vender outros cafés?

- Adolfo: Com certeza. Ele foi um dos responsáveis pela criação da qualidade da Fazenda Passeio, o marketing da fazenda.






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