Geada na implantação da lavoura

21.05.2020 Autor: Dra Paula Santini Fonte: Dra Paula Santini
Esse fenômeno natural pode levar as plantas de café à morte, causando prejuízos na produção

Com a chegada do inverno, a probabilidade de geada é um fato que assombra muitos cafeicultores desde os primórdios, isso porque esse fenômeno natural pode levar as plantas de café à morte, perdendo-se então toda a produção do próximo ano. Para tentar minimizar danos causados pela geada, precisamos saber o que ela é e como acontece.

A geada é um fenômeno climático que ocorre quando a temperatura atinge 0° em campo. O processo se dá com o congelamento do orvalho e a continua queda da temperatura, onde o vapor d'água do ar em contato com a superfície fria passa diretamente para o estado sólido, depositando-se sobre as superfícies, o que leva a um aspecto esbranquiçado sobre a paisagem. Agronomicamente falando, esse fenômeno está associado com perdas e danos, uma vez que a planta de café é sensível a geada assim como as demais culturas. 

A sensibilidade do cafeeiro a geada está relacionada com o rompimento da parede celular. O frio que antecede o congelamento já causa um retardamento no crescimento da planta e as bordas das folhas novas amarelecem, levando a um escurecimento. Quando a geada atinge a planta, as partes de contato com ela adquirem uma coloração escura, com aspecto de queima. Para o café, temperaturas nas folhas entre - 3°C e - 4°C matam os tecidos. No tronco, pode ocorrer a morte a partir de - 2°C.

A geada pode atingir apenas as partes externas da planta (geada de capote), atingir o tronco em lavouras de até 1,5 anos (canela de geada) ou ainda queimar a planta como um todo. Os pontos da planta atingidos são caracterizados por grande formação de brotações (palmeamento) (MATIELLO, et al, 2016). Há ainda a geada branca, que se dá pelo congelamento do orvalho e deposição na superfície do material vegetal devido a condensação do vapor de água atmosférico, podendo ser irreversível. A geada negra se dá quando a temperatura de congelamento do ar é menor do que a temperatura de congelamento da planta, ou seja, a umidade do ar está alta. Em contrapartida, condições em que a umidade do ar está baixa (o ar do ambiente está seco), o frio é capaz de congelar a seiva da planta antes mesmo de formar cristais de gelo na superfície vegetal.

Na tentativa de mitigar os danos da geada no cafeeiro existem algumas estratégias de escape. A primeira delas sempre é a recomendação de implantar lavouras em áreas conhecidas, sem incidência de geada, com histórico de pelos menos quatro anos sem a ocorrência desse fenômeno. 

Na impossibilidade de ter uma área sem ocorrência de geada, deve-se optar por propriedades com declividade superior a 5%. Dar preferência às que recebem mais calor durante o inverno e são protegidas dos ventos frios. A irrigação pode ser uma alternativa que visa adicionar calor e ao mesmo tempo impedir a queda da temperatura abaixo de 0°C. Dela dve ser iniciada quando a temperatura ao nível dos canteiros ainda estiver acima de 0°C e não pode ser interrompida até o nascer do sol, sob pena de ocorrerem danos mais intensos. Em talhões de pequeno porte, recomenda-se distribuir pequenos aquecedores feitos de uma mistura de lascas de madeira com óleo diesel acondicionados em latas de óleo combustível ou óleo comestível de 1 litro, que produz bom aquecimento. A longo prazo, a instalação de quebra-ventos visa reduzir os impactos dos ventos frios e dos ventos dominantes durante o ano. Terrenos expostos a vento frio devem ter os renques de árvores cortando nessa direção. Caso o interesse seja reduzir os efeitos dos ventos dominantes durante o ano, deve-se observar na propriedade a tendência de inclinação das árvores em decorrência do impacto contínuo do vento e instalar as cortinas perpendiculares a essa direção. Os ramos inferiores das árvores devem ser eliminados até pelo menos 1 metro acima das copas dos cafeeiros para permitir o escoamento do ar frio durante a noite.

Uma técnica que vem sedo muito utilizada para minimizar os impactos das geadas é a arborização com espécies arbustivas e arbóreas, o que é bastante eficiente. Com bons resultados conhecidos, tem-se usado o guandu na implantação da lavoura, a grevílea em todas as áreas ou a bracatinga nas áreas mais elevadas de solos argilosos. No caso do uso do guandu faz-se um túnel. O guandu comum ou guandu gigante é semeado na entrelinha em setembro/outubro e conduzido para formar um túnel alto sobre a linha de cafeeiros, que é plantado em fevereiro-março após um período chuvoso. Esse plantio aumenta a eficiência de pegamento, reduzindo a incidência de bicho mineiro e ervas daninhas, além de proteger o cafeeiro contra geada. O túnel deve ser gradativamente eliminado após o inverno.

As propriedades que geram grandes quantidades de resíduos vegetais (palhas) podem utilizar uma cobertura espessa sobre as mudas, que deve ser retirada após o risco estar finalizado. Na impossibilidade dessas técnicas citadas, ainda existe a dobra de mudas de café com até 6 meses após o plantio no campo, recobrindo-as com uma camada espessa de terra (15 a 20cm) na véspera da ocorrência de geadas. Passado o alerta de geada, as plantas devem ser descobertas manualmente e imediatamente. Quando não é mais possível dobrar as mudas para cobrir (com altura maior que 20 cm) pode-se acumular terra junto aos troncos até a altura do primeiro par de ramos plagiotrópicos afim de evitar a geada de canela e proteger as gemas contra as geadas mais severas. Assim, mesmo que a parte aérea venha a morrer, evitam-se prejuízos maiores com replantio conduzindo-se uma nova brotação, porém é uma operação de risco e com custo elevado, muitas vezes inviável.

No mais, a implantação da lavoura deve ser acompanhada minuciosamente pelos produtores e técnicos de campo para evitar ou reduzir o risco de geada, porque uma vez que ela atinge a lavoura, a reversão é pouco eficiente e nem sempre é possível de ser realizada.

Fonte: 

CARAMORI, P. H. et al. MÉTODOS DE PROTEÇÃO CONTRA GEADAS EM CAFEZAIS EM FORMAÇÃO.

CARVALHO, L. G.; DANTAS, A. A. A.; CASTRO NETO, P. Agrometeorologia: Geada e plantas cultivadas. Lavras, UFLA, 2014.

MATIELLO, J. B.; ALMEIDA, S.R. Deu geada no cafezal, não façam podas já. Engs Agrs Mapa-Procafé, REVISTA DO CAFÉ, 2016. 24p. 

REHAGRO. Acesso em: Geada nos cafezais: como evitar prejuízos

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